Friday, September 13, 2013

O Enfermeiro

"Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa...Foi uma luta desgraçada, uma fatalidade. Fixei-me nessa idéia...não era a culpa do coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o tornava assim rabugento e até mau...mas eu perdoava tudo, tudo...Considerei também que o coronel não podia viver mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia...[eu] estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicação e a paciência...eu defendia-o, apontava algumas virtudes, era austero...mas a verdade é que ele devia morrer, ainda que não fosse aquela fatalidade..."

O Enfermeiro foi um conto muito interessante sobre um enfermeiro que por causa da sua raiva com um paciente rabugento e violento, acaba por matá-lo. Mas a ferramenta que Machado de assis usa para ajudar-nos ver e compreender a mensagem do texto é o fato que ele escreve esse conto com o enfermeiro representado o narrador. Por que? Machado faz isso, realmente para que nós (os leitores) vejamos que a natureza humana é arranjar desculpas a fim de arejar a nossa consciência.

Fica a idéia de que os valores internos não corresponde aos de valores externos. Lemos que o enfermeiro lutava tanto para ter paciência com o Coronel, mas afinal, acaba por tirá-lo a vida. Depois disso, o enfermeiro ficou com muito culpa daquilo que tinha feito. E as escrituras que o narrador usou mostra-nos que esse homem foi uma homem cristã. Sabia que fez mal (valores internos). Mas, como sempre, Machado inclui  a ironia que o enfermeiro não somente herdou o dinheiro do Coronel rico, mas também recebeu elogios duma cidade inteira. Mas em vez de sentir mais culpa, o enfermeiro ilude a si mesmo. Ele começou a justificar a sua ação e acreditar nas coisas que as pessoas diziam (valores externos).

Mais ironia é que o homem, sendo cristã, não confessava o seu pecado, mas ao remóir-se de remorso o ele começa a fazer desculpas para cobrir o seu ato e tratar bem a sua mente. Quando fazemos coisas erradas, a nossa culpa fica pesada. Então inventamos desculpas seja onde pudermos, enganamo-nos mesmos, compensamos falhas, lembramo-nos dos outros fatos, e mesmo fazemos boas ações depois para que fiquemos leves. O enfermeiro faz exatamente isso. Por exemplo, o coronel tinha um aneurisma em estágio terminal que ia acabar com a sua vida em qualquer momento. O primeiro disse que foi uma luta e estava se defendendo do coronel. Os médicos no fim disseram que a morte de felisberto era certa. O enfermeiro agarrava em tudo que puder para arejar a sua consciência, e mesmo doa toda a fortuna que herdou, iludindo-se que isso limpava-se do seu ato mal. Mas enfim, o pecado fica com ele.

Porque o enfermeiro escreveu este conto, temos um "front row seat" em ver e testemunhar a batalha da natureza humana de ser honesto e reto ou de ser mentiroso e covarde. Vimos esse mesma batalha em "A Cartomante." O homem ilude-se a fim de aliviar-se da sua culpa.


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